Pelas frestas da escada
Quando eu era criança, provavelmente no final da década de 1960, havia uma rotina que eu esperava todas as noites.
Por volta das dez horas da noite, minha mãe nos colocava — a mim e aos meus irmãos — na escada de madeira que dava acesso aos quartos. Encostava a porta e, então, ia até o quintal dos fundos buscar o Lobo.
Lobo não era um nome escolhido por acaso.
Era um pastor alemão grande, forte e muito bravo. Daqueles cães que, aos olhos de uma criança, facilmente poderiam ocupar o lugar de uma fera. Ele respeitava apenas a minha mãe. Nós, crianças, precisávamos respeitá-lo de longe.
E era justamente por isso que ficávamos escondidos na escada.
A porta permanecia apenas encostada, e nós sabíamos que aquele era o momento de não ultrapassar os limites. Mas criança e curiosidade são quase sinônimos. Por mais que estivéssemos protegidos naquele pequeno espaço, procurávamos as frestas entre as madeiras para espiar.
Queríamos ver a passagem da fera.
Era uma espécie de ritual. O Lobo atravessava a casa, minha mãe o levava para o quintal da frente e, depois, vinha o silêncio. Sabíamos, então, que estava chegando a hora de dormir.
Hoje compreendo que aquela rotina era muito mais do que uma simples organização da casa.
Ela nos ensinava, sem que ninguém precisasse explicar, a passagem do tempo.
A criança constrói sua percepção temporal aos poucos. No início, o tempo é quase sempre concreto, marcado pelos acontecimentos: depois do banho, vem o jantar; depois do jantar, a história; depois da história, a cama. É por isso que não nos causa estranhamento ouvir uma criança pequena dizer:
— Ontem eu irei à feira com a minha mãe.
O ontem, o hoje e o amanhã ainda estão sendo descobertos. A criança começa a experimentar a abstração, mas ainda precisa de referências concretas para compreender o mundo.
E a rotina oferece essas referências.
Ela dá previsibilidade. Anuncia o que vem depois. Ajuda a criança a se sentir segura diante de um mundo que, para ela, ainda é enorme, desconhecido e, muitas vezes, imprevisível.
Talvez seja por isso que hoje eu me surpreenda tanto observando a Cecilia.
Ela me ensina, todos os dias, sobre o tempo.
Cecilia percebe a rotina com uma precisão que me impressiona. Depois do banho, vem o jantar. Depois do jantar, chega o momento de esperar a mamãe voltar do trabalho.
Ela não precisa que ninguém diga as horas.
Quando o momento do banho se aproxima, Cecilia começa a nos puxar pela mão. Leva-nos até o banheiro e aponta para o chuveiro.
É o seu jeito de dizer:
— Está na hora.
Depois do banho, ela vai até a cadeira.
Sempre a mesma.
Senta-se e espera o jantar.
A paciência, reconheço, ainda não é uma de suas maiores virtudes. Se o prato demora, ela reclama. E reclama com a clareza de quem considera absolutamente injustificável qualquer atraso naquele compromisso tão importante.
Depois do jantar, vem a varanda.
E lá está ela.
De olhos atentos, esperando a mamãe chegar do trabalho.
A cena me emociona.
Porque, de algum modo, percebo que a Cecilia também construiu suas próprias marcas do tempo. Ela sabe que uma coisa acontece depois da outra. O banho anuncia o jantar. O jantar anuncia a chegada da mãe. A rotina tornou-se uma espécie de relógio que ela aprendeu a ler com o corpo, com os gestos e com a experiência.
É claro que também procuramos ampliar esse mundo.
Tentamos, aos poucos, alterar algumas coisas de sua rotina. Introduzir pequenas mudanças. Enfrentar aquilo que pode se transformar em rigidez cognitiva, sem, contudo, esquecer que a própria rotina lhe oferece segurança.
É um equilíbrio delicado.
Talvez educar seja também isso: proteger sem aprisionar.
Penso nisso quando me lembro daquela escada de madeira.
Naquela época, eu e meus irmãos estávamos protegidos do Lobo. Minha mãe sabia que precisava nos colocar atrás daquela porta antes de levá-lo de um lado para o outro da casa.
Mas nós não queríamos apenas estar protegidos.
Queríamos enxergar.
E, pelas pequenas frestas da madeira, procurávamos descobrir o que havia do outro lado.
Hoje, tantos anos depois, gosto de imaginar que um dia a Cecilia poderá se lembrar de mim.
Talvez não consiga lembrar exatamente do meu rosto, das palavras que lhe disse ou das tantas coisas que fizemos juntos. Mas gosto de imaginar que alguma coisa de mim permanecerá nela.
Talvez eu seja, em sua memória, aquele que a colocou na escada para protegê-la do Lobo.
Mas há uma outra imagem que gosto ainda mais de imaginar.
A de Cecilia olhando pelas frestas.
Porque proteger é necessário. Mas, em algum momento, é preciso também permitir que a criança descubra o mundo.
Mesmo que o mundo assuste.
Mesmo que haja lobos.
Mesmo que nossas mãos, por amor, tenham vontade de segurá-la para sempre.
Talvez o maior gesto de proteção seja justamente aquele que, aos poucos, nos ensina a deixar de proteger.
E eu espero que Cecilia, algum dia, possa olhar pelas suas próprias frestas.
Que possa enxergar o que existe além delas.
E que, quando finalmente atravessar a porta, eu ainda esteja por perto — não para impedir que ela vá, mas para lembrá-la de que, em algum lugar de sua história, houve um avô que a amou o suficiente para protegê-la do Lobo e, mais ainda, para deixá-la descobrir o mundo.